A fundadora da DGdecor, Daugliesi Giacomasi Souza, aponta uma contradição frequente em reformas residenciais: a remoção de paredes para ampliar o espaço pode comprometer sua funcionalidade. A integração entre as áreas, evidenciada pela presença de cozinhas abertas para a sala, varandas incorporadas e escritórios sem porta, confere aos ambientes uma sensação de amplitude e iluminação. No entanto, essa integração também pode propagar odores, ruídos e desordem em áreas que anteriormente apresentavam delimitações claras.
A decisão costuma ser influenciada por referências visuais, quando deveria ser baseada em uma análise técnica e da rotina de quem mora no imóvel. Antes de convocar a equipe de demolição, é preciso responder a algumas perguntas fundamentais. Elas envolvem aspectos estruturais, legais e de uso, e têm o objetivo de determinar se a integração é viável e de que forma deve ser executada, a fim de evitar problemas posteriores.
Paredes estruturais definem os limites das mudanças em uma reforma
Em prédios de alvenaria estrutural, as paredes sustentam a construção e não podem ser removidas. Em prédios com estrutura de concreto armado, vigas e pilares cumprem esse papel. A maior parte das paredes é de vedação, ampliando as possibilidades, mas é necessária a verificação por um profissional habilitado.
Em condomínios, a norma ABNT NBR 16280 estabelece que reformas que possam afetar os sistemas da edificação devem ser acompanhadas de um plano assinado por um responsável técnico e apresentado ao síndico antes do início da obra. A omissão dessa etapa pode acarretar em embargo, multa e, no pior cenário, em danos que afetem outras unidades do prédio.
Em consonância com a visão de Daugliesi Giacomasi Souza, a consulta à planta original constitui o ponto de partida do projeto, não se tratando meramente de uma formalidade. Paredes aparentemente simples podem ocultar prumadas hidráulicas, eletrodutos e tubulações de gás. A realocação desses elementos pode resultar em um aumento significativo no custo da obra e, em alguns casos, inviabilizar a integração originalmente prevista.

Critérios para decidir se a integração vale a pena
Após a superação da questão estrutural, a decisão passa a ser de uso. Como ressalta Daugliesi Giacomasi Souza, a integração é mais eficaz quando responde a uma necessidade concreta do lar, como receber visitas com frequência ou acompanhar as crianças enquanto se cozinha, e não apenas a uma tendência estética. Alguns critérios ajudam nessa avaliação:
- Rotina da família: quem trabalha em casa ou precisa de silêncio em horários específicos pode sentir falta de ambientes fechados, já que a integração total reduz a privacidade acústica.
- Ventilação e exaustão: cozinhas abertas exigem coifa ou depurador bem dimensionado; sem isso, gordura e odores se espalham pela sala e se fixam em tecidos e estofados.
- Iluminação natural: remover uma parede pode levar luz a áreas escuras, mas também elimina superfícies úteis para apoiar móveis, quadros e prateleiras.
- Continuidade de acabamentos: ambientes integrados pedem pisos e revestimentos que conversem entre si, porque diferenças de nível ou de material ficam muito mais evidentes.
- Custo total: além da demolição, entram no orçamento ajustes elétricos, novo forro, regularização do piso e a documentação exigida pelo condomínio.
Como indicado por Daugliesi Giacomasi Souza, é essencial avaliar esses pontos em conjunto, evitando que a reforma resolva um problema e crie outro. Uma sala ampla e bem iluminada pode ter seu valor comprometido se a família tiver que conviver com cheiro de fritura no sofá ou com a impossibilidade de trabalhar enquanto alguém assiste à televisão no mesmo ambiente.
Em casos nos quais a resposta a esses critérios não está clara, soluções intermediárias preservam parte das vantagens dos dois modelos. Portas de correr embutidas, painéis de vidro com caixilho fino e estantes vazadas criam fronteiras flexíveis, que permitem a passagem de luz, a contenção de ruídos e odores e a experimentação da convivência com o espaço aberto sem a necessidade de uma divisão definitiva.
Amplitude é consequência, não ponto de partida
Embora a parede derrubada seja a parte mais visível de uma reforma, raramente é a mais importante. O sucesso da integração está diretamente relacionado à combinação entre segurança estrutural, regularidade perante o condomínio e coerência com a forma como a casa é usada no dia a dia.
Ao partir dessas questões, o projeto deixa de ser uma promessa de foto para se transformar em um resultado de escolhas bem fundamentadas. Essa ordem de decisões é associada por Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, a um bom projeto, capaz de diferenciar um espaço realmente integrado de um espaço apenas vazio de paredes.