Cemaden projeta ao menos seis ondas de calor no Brasil até dezembro, impulsionadas por possível Super El Niño

Elliot Caldervale
Elliot Caldervale 8 Min de leitura
8 Min de leitura

 Temperaturas até 3°C acima da média já são esperadas em setembro, com risco de agravar seca em mais de 150 municípios do Norte e Nordeste

O segundo semestre de 2026 promete ser marcado por um calor fora do padrão em boa parte do território brasileiro. Segundo análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, o país pode enfrentar pelo menos seis ondas intensas de calor entre setembro e dezembro deste ano, um cenário associado à influência do El Niño, que caminha para se tornar um dos episódios mais fortes já registrados.

 

Como o levantamento foi feito

 

A projeção não é uma simples estimativa. O Cemaden avaliou o histórico de 47 anos de registros de temperatura em anos influenciados pelo fenômeno El Niño para chegar à conclusão de que o país deve viver um período de calor atipicamente intenso nos próximos meses. Segundo a pesquisadora Mabel Calim Costa, do Sistema Terrestre e integrante do Cemaden, a frequência de dias extremamente quentes pode até superar a média estimada pelo estudo, justamente pela intensidade do atual episódio de El Niño, que se encaminha para figurar entre os mais fortes já documentados pelos institutos meteorológicos.

Vale lembrar que uma onda de calor não se resume a um único dia de temperatura elevada. Para que o fenômeno seja caracterizado tecnicamente, é necessário que as temperaturas máximas e mínimas fiquem excepcionalmente acima do padrão esperado para a região por pelo menos três dias consecutivos. Esse critério ajuda a diferenciar picos isolados de calor de eventos mais duradouros, que tendem a ter impacto maior sobre a saúde da população e sobre setores como agricultura e energia.

 

Mudança de comportamento nas últimas décadas

 

Um dos pontos mais chamativos do levantamento é a comparação histórica. Nas décadas de 1980 e 1990, os episódios de calor extremo eram raros e concentrados principalmente na região Nordeste. A partir de 2010, e de forma mais acentuada depois de 2020, esse cenário mudou significativamente, e as ondas de calor passaram a ser mais frequentes e a atingir também as regiões Sudeste e Sul, áreas historicamente menos habituadas a esse tipo de evento climático extremo.

O recorde mais recente ilustra bem essa tendência. O período entre 2023 e 2024 foi o pico da série histórica, com nove ondas de calor registradas entre agosto e dezembro, o maior número já contabilizado desde 1979, mais que o dobro da média geral do país, que costuma ficar em torno de quatro episódios por ano. Uma das ondas mais sentidas na época ocorreu em setembro de 2023, quando as temperaturas em São Paulo ultrapassaram a marca de 40°C na capital paulista, situação que colocou em alerta hospitais e serviços de emergência.

 

O que esperar já em setembro

 

As previsões meteorológicas para as próximas semanas já sinalizam o início desse padrão mais quente. Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, também do Cemaden, os primeiros impactos mais evidentes da configuração atual do El Niño devem se manifestar já neste mês, com diversas áreas do país podendo registrar temperaturas até 3°C acima da média histórica para o período. Seluchi observa ainda que a temperatura dos oceanos vem batendo recordes sucessivos, o que reforça a expectativa de calor mais intenso, frequente e duradouro a partir de setembro.

A distribuição geográfica desse calor, porém, não deve ser uniforme. A expectativa é de temperaturas mais altas concentradas no Centro-Sul do país, enquanto a região Sul pode registrar, em paralelo, episódios de chuva mais intensa, um contraste que reflete a complexidade dos efeitos do El Niño sobre o clima brasileiro em diferentes regiões simultaneamente.

 

Seca já afeta mais de 150 municípios

 

O calor previsto para os próximos meses tende a agravar um problema que já é realidade em parte do país. Dados do Índice Integrado de Seca, elaborado pelo Cemaden para o governo federal, apontam 157 municípios em situação de seca severa neste momento. O estado do Tocantins concentra o maior número de cidades nessa condição, com 50 municípios afetados, seguido pela Bahia, com 18. A maior parte dos municípios em situação crítica está localizada nas regiões Norte e Nordeste, áreas que já convivem historicamente com maior vulnerabilidade a períodos prolongados de estiagem.

A combinação entre calor extremo, tempo seco e baixa umidade preocupa autoridades por outro motivo relevante: o aumento do risco de incêndios florestais e queimadas, um problema recorrente no Brasil durante o segundo semestre, especialmente em áreas de vegetação nativa já fragilizada por anos consecutivos de estiagem.

 

Impacto na produção de alimentos e nos preços

 

Os efeitos de um El Niño forte não ficam restritos ao termômetro. Períodos prolongados de calor, seca ou excesso de chuva podem afetar diretamente a produção agrícola e reduzir a oferta de determinados produtos no mercado interno. Segundo um estudo citado na análise do Cemaden, alimentos in natura, como carnes e hortaliças, estão entre os mais vulneráveis a choques climáticos dessa natureza. Em um cenário de El Niño forte, os preços dessa categoria de alimentos poderiam avançar significativamente, pressionando o orçamento das famílias brasileiras já nos próximos meses.

 

Recomendações para a população

 

Diante desse panorama, especialistas reforçam a importância de a população se preparar com antecedência para períodos de calor mais intenso, especialmente em cidades que historicamente não enfrentavam temperaturas tão elevadas. Hidratação constante, evitar exposição prolongada ao sol nos horários de pico e atenção redobrada com crianças, idosos e pessoas com condições de saúde preexistentes são cuidados básicos recomendados por órgãos de vigilância em saúde durante episódios de calor extremo.

Para o Cemaden, o monitoramento contínuo das próximas semanas será decisivo para confirmar a intensidade real do fenômeno. Ainda não há uma data exata definida para a primeira onda de calor do período, mas os mapas meteorológicos já indicam uma tendência clara de aquecimento acima da média em grande parte do território nacional, o que reforça a necessidade de atenção redobrada por parte da população e dos órgãos de defesa civil ao longo dos próximos meses.

Fontes consultadas:
https://www.band.com.br/previsao-do-tempo/estudo-mostra-que-seis-fortes-ondas-de-calor-devem-atingir-o-brasil-em-2026
https://atarde.com.br/brasil/brasil-deve-enfrentar-seis-ondas-de-calor-ate-dezembro-veja-previsao-1400143
https://www.tmadicas.com.br/2026/08/brasil-pode-ter-pelo-menos-6-ondas-de.html

 

Compartilhe este artigo