Para Tiago Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, o Brasil vive um momento decisivo para a administração funerária. Depois de décadas em que o setor operou com poucos recursos técnicos e ainda menos visibilidade institucional, um movimento gradual de profissionalização começa a redesenhar a forma como cemitérios públicos e privados são geridos em todo o país.
O Brasil conta com mais de 17.000 cemitérios registrados em municípios de todos os portes. Uma parcela expressiva desses espaços ainda funciona sem plano diretor, sem sistemas de controle de sepultamentos e sem qualquer estrutura voltada ao atendimento humanizado das famílias.
O contraste com modelos internacionais mais avançados revela tanto o tamanho do desafio quanto a dimensão das possibilidades para quem escolhe modernizar. Continue lendo para entender como essa transformação está acontecendo e o que ela significa para famílias, gestores e municípios brasileiros.
O que mudou na gestão cemiterial brasileira nos últimos anos?
Por muito tempo, a administração funerária no Brasil foi tratada como um serviço de segunda ordem: necessário, mas raramente dotado de atenção estratégica. Esse quadro começou a mudar com o fortalecimento de entidades como a Acembra Sincep (Associação dos Cemitérios e Crematórios do Brasil), que passou a estabelecer parâmetros técnicos, promover capacitações e fomentar debates sobre regulação e qualidade no setor.
O resultado é uma base cada vez mais sólida de referências e boas práticas para todos os tipos de cemitério, independentemente do porte ou da localidade. De acordo com Tiago Schietti, a profissionalização da gestão cemiterial vai muito além de contratar mão de obra qualificada ou adquirir equipamentos modernos. Ela implica uma mudança cultural profunda: entender que o cemitério é um espaço de memória coletiva, que atende a uma demanda humana das mais sensíveis e que, por isso mesmo, exige protocolos, planejamento territorial e, sobretudo, empatia institucional.
Quais são os principais desafios da administração funerária pública no Brasil?
A gestão dos cemitérios públicos enfrenta obstáculos que ultrapassam a questão orçamentária. Muitos municípios brasileiros sequer dispõem de um mapeamento completo de seus espaços sepulcrais: desconhecem o número exato de sepulturas, quais estão em uso ativo, quais foram abandonadas e qual é o prazo de concessão de cada unidade.

Essa lacuna informacional gera conflitos, disputas por área e, em situações mais graves, o desaparecimento definitivo de registros históricos que não têm como ser recuperados. Segundo o empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Schietti, um dos pontos mais críticos é a ausência de regulamentação municipal específica. Grande parte dos cemitérios públicos opera com base em legislações antigas, desatualizadas ou simplesmente inexistentes, o que cria insegurança para os gestores e incerteza para as famílias.
A tecnologia pode transformar a experiência das famílias nos espaços de memória?
A resposta é objetiva: sim, e a transformação já está em curso. Plataformas de busca online por sepultamentos, QR codes nos jazigos que direcionam a páginas de memória virtual, sistemas de agendamento de visitas e aplicativos de geolocalização interna em cemitérios estão sendo adotados por operadores que entendem a tecnologia como extensão direta do cuidado com as famílias.
O que era novidade há cinco anos se torna, progressivamente, um padrão esperado pelo público que acessa esses serviços. Como destaca Tiago Schietti, a experiência da família no cemitério não se restringe ao momento do sepultamento. Ela começa no primeiro contato com a administração, perpassa a qualidade das informações disponíveis e se estende por anos, nas visitas periódicas e nas renovações de concessão.
Gestão cemiterial integrada: quando o privado e o público aprendem juntos
Um dos fenômenos mais relevantes do setor na atualidade é a aproximação entre modelos de gestão pública e privada. Cemitérios particulares que operam com altos padrões de excelência têm servido de referência para secretarias municipais que buscam reformular seus próprios processos.
Visitas técnicas, eventos setoriais promovidos pela Acembra Sincep e programas de capacitação continuada têm facilitado essa troca de experiências entre esferas que, por muito tempo, funcionaram de forma completamente isolada uma da outra. Na avaliação de Tiago Schietti, esse intercâmbio é fundamental para o avanço do setor como um todo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez