Nova sobretaxa, ligada a investigação sobre trabalho forçado, entra em vigor nesta sexta-feira e se soma à tarifa de 25% já aplicada desde a última quarta.
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira, dia 23 de julho, a aplicação de uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros, decisão que substitui a taxa global temporária de 10% que estava em vigor desde fevereiro deste ano. A medida se soma à sobretaxa de 25% que já havia entrado em vigor no dia 22, o que significa que parte das exportações brasileiras para o mercado americano pode enfrentar uma tributação total de até 37,5%. A decisão foi tomada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) após uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, e afeta não só o Brasil, mas outros 53 países considerados parceiros comerciais relevantes dos Estados Unidos. A seguir, entenda por que essa nova tarifa foi aplicada, quais produtos ficam de fora da cobrança e o que o governo brasileiro já se manifestou sobre o caso. Agência BrasilAgência Brasil
Por que os EUA aplicaram essa nova tarifa
Segundo o USTR, a nova sobretaxa está relacionada a uma investigação sobre o combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas globais. De acordo com o órgão americano, o Brasil integra o grupo de países que não adotaram, ou não aplicam de forma eficaz, mecanismos legais para impedir a entrada de produtos fabricados sob essa condição em seus mercados internos. A investigação analisou ao todo 60 dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, que juntos respondem por 99,4% de todas as importações americanas. Metrópoles
O relatório do USTR cita cinco categorias de produtos associadas ao Brasil dentro dessa investigação: alumínio, algodão, eletrônicos, baterias de lítio e tabaco<cite index=”83-1″>, itens que, segundo os americanos, teriam entrado no mercado brasileiro com preços artificialmente reduzidos entre 2021 e 2025, o que criaria uma vantagem competitiva considerada indevida. É importante frisar que a tarifa de 12,5% não representa uma acusação de que o Brasil produza ou exporte mercadorias feitas com mão de obra escrava; o argumento americano é de que o país não teria uma proibição específica contra a importação desse tipo de produto vindo de outras nações. Brasil 247Metrópoles
Os Estados Unidos dividiram os 60 países investigados em dois grupos principais. Nações que já contam com mecanismos legais para restringir esse tipo de importação, mas que ainda apresentam falhas na fiscalização, receberam uma tarifa adicional de 10%, caso de Canadá, México, Equador, Indonésia, Paquistão e da União Europeia. Já o Brasil ficou no segundo grupo, junto de economias como China, Argentina, Austrália, Japão, Reino Unido, Índia e África do Sul, todos taxados em 12,5% por, segundo o USTR, não adotarem ou não aplicarem de forma efetiva esse tipo de proibição. Metrópoles
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que a prática identificada pela investigação prejudica empresas e trabalhadores americanos, reforçando o argumento de que produtos mais baratos, fabricados sob condições consideradas irregulares em outros países, afetam a competitividade da indústria doméstica dos Estados Unidos. A nova alíquota entra em vigor à 1h01 no horário de Brasília desta sexta-feira, e mercadorias já em trânsito para os Estados Unidos poderão entrar no país sem a cobrança adicional até a próxima terça-feira, dia 28. Agência Brasil
O que fica de fora da tarifa e como o governo brasileiro reagiu
Apesar do alcance amplo da nova sobretaxa, uma lista de produtos ficou isenta tanto da tarifa de 12,5% quanto da tarifa de 25% aplicada anteriormente. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, cerca de dois mil produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos não estarão sujeitos a nenhuma das duas cobranças, entre eles café, carne, suco de laranja e frutas. Entre os itens isentos citados pelo próprio USTR também aparecem petróleo e gás, além de fertilizantes, produtos que, segundo o órgão americano, dificilmente teriam relação direta com o problema apontado na investigação sobre trabalho forçado. Tribuna do SertãoCNN Brasil
Por outro lado, o ministro reconheceu que diversos setores da economia brasileira vão enfrentar as duas tarifas somadas, o que na prática eleva a cobrança total a 37,5% sobre parte relevante da pauta exportadora. Segundo ele, calçados, máquinas, equipamentos, peças, componentes e confecções estão entre os segmentos que devem arcar com essa dupla taxação, exceto produtos químicos não farmacêuticos. Considerando os números de exportação de 2025, a tarifa de 12,5% isoladamente já atinge 42% de tudo o que o Brasil vende aos Estados Unidos, segundo cálculos do economista João Carmo, da consultoria 4 Intelligence, percentual que sobe para 43% quando o cálculo é feito com base no volume exportado em 2024. Tribuna do SertãoTribuna do Sertão
Diante do novo cenário, o discurso do governo brasileiro segue na linha já adotada em relação à tarifa de 25%: o país mantém compromissos históricos de combate ao trabalho forçado e considera que as justificativas usadas pelos Estados Unidos não refletem a realidade das políticas brasileiras nessa área. A avaliação de analistas de comércio exterior é que o novo tarifaço amplia a pressão sobre setores que já vinham sofrendo com a taxa anterior, o que deve levar o governo a acelerar discussões sobre diversificação de mercados e possíveis negociações bilaterais com Washington nas próximas semanas.
Mesmo diante desse cenário mais desafiador, o histórico recente do comércio exterior brasileiro mostra alguma capacidade de adaptação: as exportações do país bateram recorde em 2025, somando US$ 348,7 bilhões, impulsionadas em parte pela expansão das vendas para a China e outros grandes parceiros comerciais, mesmo com meses de tarifas punitivas já em vigor por parte dos Estados Unidos. Esse dado reforça a leitura de que, embora o mercado americano continue relevante, o Brasil vem conseguindo compensar parte das perdas ampliando o leque de destinos para seus produtos, uma estratégia que tende a ganhar ainda mais peso agora que a tributação total sobre parte das exportações pode chegar a 37,5%.
Para os próximos dias, a expectativa do setor produtivo é por mais clareza sobre como cada segmento específico será enquadrado dentro das novas regras, já que a lista completa de exceções e a forma como a dupla taxação será aplicada na prática ainda geram dúvidas entre exportadores. O tema deve continuar no centro do noticiário econômico nas próximas semanas, tanto pelo impacto direto sobre setores como calçados e máquinas quanto pelo desdobramento diplomático entre Brasília e Washington.