Analfabetismo no Brasil cai abaixo de 5% pela primeira vez desde 2016

Diego Velázquez
Diego Velázquez 6 Min de leitura
6 Min de leitura

Dados do IBGE mostram avanço histórico na alfabetização, mas 8,4 milhões de brasileiros ainda não sabem ler nem escrever um bilhete simples.

O Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de analfabetismo desde o início da série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2016. Segundo o IBGE, o país tinha 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabiam ler ou escrever um bilhete simples, o que corresponde a uma taxa de 4,9%. É a primeira vez que esse número fica abaixo do patamar de 5%, e o resultado gera uma dúvida recorrente entre os brasileiros: afinal, o que mudou para que o país chegasse a esse marco, e por que ainda existem milhões de pessoas fora da alfabetização básica?

Como o Brasil chegou à menor taxa de analfabetismo da história

Os dados fazem parte do módulo Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgado pelo IBGE, que teve a série histórica de 2016 a 2025 reponderada a partir dos resultados do Censo 2022. Em 2016, primeiro ano da pesquisa, a taxa de analfabetismo do país era de 10,6%. Em nove anos, portanto, o índice caiu praticamente pela metade, uma redução de 592 mil pessoas apenas na comparação entre 2024 e 2025.

Segundo o analista da pesquisa William Kratochwill, a queda reflete o maior acesso das gerações mais jovens à escolarização, já alfabetizadas ainda na infância. O analfabetismo, hoje, está muito mais concentrado entre os idosos: pessoas com 60 anos ou mais representam 58% do total de analfabetos do país, um contingente de 4,9 milhões de pessoas. Sem considerar essa faixa etária, a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 a 59 anos cai para apenas 2,6%.

Apesar do avanço, o Plano Nacional de Educação anterior, que previa a erradicação total do analfabetismo até 2024, não foi cumprido. O novo PNE, sancionado recentemente e válido até 2036, estabelece a meta de elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 97% até 2031, além de buscar a erradicação completa do problema até o fim da década.

As desigualdades regionais e raciais que persistem

Mesmo com a melhora geral, os dados do IBGE expõem desigualdades importantes entre regiões do país. O Nordeste concentra a maior parte dos analfabetos brasileiros, com 4,8 milhões de pessoas e uma taxa de 10,6%, mais que o dobro da média nacional. Em seguida aparecem o Norte, com 5,7%, o Centro-Oeste, com 3,3%, o Sul, com 2,4%, e o Sudeste, com a menor taxa entre as regiões, de 2,3%.

O recorte racial também chama atenção. Entre a população de 15 anos ou mais, a taxa de analfabetismo de pessoas brancas é de 2,8%, enquanto entre pretos e pardos esse número sobe para 6,5%. A diferença fica ainda mais expressiva entre os idosos: na faixa de 60 anos ou mais, a taxa de analfabetismo entre pretos ou pardos chega a 20,6%, quase três vezes superior à registrada entre brancos da mesma idade, de 7,3%. Para o IBGE, esse dado reflete “um legado estrutural de exclusão educacional” que atravessa gerações.

Já entre os gêneros, houve uma inversão histórica: pela primeira vez, a taxa de analfabetismo das mulheres com 60 anos ou mais (13,7%) ficou menor que a dos homens da mesma faixa etária (14,1%). Considerando toda a população com 15 anos ou mais, as mulheres também apresentam taxa menor de analfabetismo (4,6%) em comparação aos homens (5,2%), o que indica avanços na escolarização feminina ao longo das últimas gerações.

O que esperar para os próximos anos

Um dos pontos positivos observados pela pesquisa é a frequência escolar entre crianças. Cerca de 96,1% das crianças de 6 a 14 anos frequentam o ensino fundamental na idade adequada, o que sugere que as novas gerações devem seguir reduzindo a taxa geral de analfabetismo do país nos próximos anos, à medida que a população mais jovem envelhece já alfabetizada.

Por outro lado, o desafio de alfabetizar adultos e idosos que ficaram fora da escola em décadas passadas segue como um dos principais gargalos das políticas públicas de educação. Segundo especialistas ouvidos pelo IBGE, é necessário equilibrar investimentos entre a manutenção de crianças e jovens na escola e programas específicos voltados à alfabetização de adultos, já que os dois públicos enfrentam barreiras diferentes.

A queda da taxa de analfabetismo para 4,9% representa um avanço real na educação brasileira, mas os próprios dados do IBGE deixam claro que o trabalho está longe de terminar. Com 8,4 milhões de pessoas ainda fora da alfabetização básica, e desigualdades regionais e raciais bem delimitadas, o país segue com um caminho longo pela frente para cumprir a meta de erradicar o analfabetismo até o final desta década, conforme prevê o novo Plano Nacional de Educação.

Fontes: Agência de Notícias IBGE, CNN Brasil, InfoMoney

Compartilhe este artigo