Estudo mostra avanço do envelhecimento docente e das contratações temporárias, levantando dúvidas sobre quem ocupará as salas de aula nas próximas décadas.
O Brasil está formando e atraindo professores jovens em ritmo suficiente para substituir os profissionais que se aproximam da aposentadoria? Dados divulgados nesta semana colocam essa questão no centro do debate educacional. O número de professores do ensino médio com até 24 anos caiu 31,1% entre 2015 e 2025, passando de 17,3 mil para 11,9 mil. No sentido contrário, a quantidade de docentes com 60 anos ou mais avançou 104,5%, de 18,2 mil para 37,3 mil. (O POVO)
Os números fazem parte da segunda edição da pesquisa “Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil”, produzida pelo Instituto Semesp e divulgada em 16 de setembro durante o 28º Fórum Nacional do Ensino Superior Particular Brasileiro, em São Paulo. (O POVO) O levantamento não significa que o país ficará simplesmente “sem professores”, mas aponta um desequilíbrio geracional que merece atenção. O problema envolve não apenas quantos docentes estão trabalhando hoje, mas a capacidade de substituí-los ao longo dos próximos anos.
Por que há cada vez menos professores jovens nas salas de aula?
A redução de profissionais com até 24 anos ganha outra dimensão quando comparada ao movimento observado entre os docentes mais velhos. Em 2015, havia cerca de 17,3 mil professores na faixa mais jovem analisada e 18,2 mil com pelo menos 60 anos. Dez anos depois, o primeiro grupo havia diminuído para 11,9 mil, enquanto o segundo alcançou 37,3 mil profissionais. Em outras palavras, a quantidade de docentes mais velhos mais que dobrou justamente no período em que diminuiu a presença dos profissionais em início de carreira. (O POVO)
Essa transformação é importante porque a renovação de qualquer carreira depende de um fluxo relativamente contínuo de entrada de novos profissionais. No caso da educação, a questão ganha peso adicional porque aposentadorias ou abandono da profissão podem produzir dificuldades diferentes entre disciplinas e regiões. O Instituto Semesp criou uma Taxa de Renovação Docente para observar justamente a relação entre os professores mais jovens e aqueles com 60 anos ou mais. O indicador caiu de 0,95 em 2015 para 0,32 em 2025: há atualmente aproximadamente um professor de até 24 anos para cada três docentes com pelo menos 60 anos. (O POVO)
O desequilíbrio não aparece de maneira uniforme em todas as áreas. Segundo o levantamento, algumas das menores taxas de renovação estão em Geografia, com 0,216; História, com 0,234; Língua Portuguesa, com 0,240; Sociologia, com 0,263; Filosofia, com 0,274; e Artes, com 0,278. (O POVO) Esses números ajudam a deslocar a discussão de uma pergunta genérica — se faltarão professores — para outra mais precisa: em quais disciplinas e redes poderá ser mais difícil substituir os profissionais que deixarem a carreira?
O estudo projeta que essa distância geracional poderá aumentar. Mantida a trajetória considerada pelo Instituto Semesp, em 2040 poderá existir apenas um professor com até 24 anos para cada seis docentes com 60 anos ou mais. (OCP News) Trata-se de uma projeção, e não de um resultado inevitável. Políticas educacionais, condições de trabalho, concursos, formação universitária e mudanças demográficas podem alterar o cenário ao longo dos próximos anos.
Contratos temporários crescem e ajudam a explicar uma transformação maior
A idade dos professores representa apenas uma parte da mudança. O levantamento também identificou crescimento expressivo das contratações temporárias na rede pública. Entre 2015 e 2025, o número de docentes nessa condição aumentou de aproximadamente 146 mil para 205 mil, avanço de 40,4%. Com isso, a participação dos temporários passou de 32,2% para 43,4% do quadro considerado pela pesquisa. (O POVO)
No movimento contrário, diminuiu o contingente de professores concursados, efetivos ou estáveis. O grupo caiu de aproximadamente 305 mil para 255 mil profissionais no mesmo intervalo. Em termos proporcionais, representava 67,2% do quadro em 2015 e passou para 54,1% em 2025. (O POVO) O dado é relevante porque revela que a discussão sobre renovação docente não envolve somente atrair jovens para as licenciaturas, mas também compreender quais vínculos profissionais estarão disponíveis quando eles chegarem às redes públicas.
Não é possível concluir apenas desses números que a contratação temporária seja a causa da redução de jovens na profissão. O próprio levantamento, porém, associa o envelhecimento do quadro e a presença crescente de vínculos temporários e terceirizados às dificuldades para renovar as redes públicas. (O POVO) É justamente nessa combinação que aparece um dos principais pontos de atenção: uma rede pode continuar preenchendo vagas no curto prazo e, simultaneamente, apresentar dificuldades estruturais para construir uma nova geração de profissionais com perspectiva de permanência na carreira.
Para o leitor, essa diferença é fundamental. Uma eventual escassez docente não precisa ocorrer como um desaparecimento repentino de professores das escolas. Ela pode aparecer gradualmente, por meio de maior dificuldade para preencher determinadas disciplinas, rotatividade de profissionais, dependência de contratos de curta duração ou necessidade de reorganização das redes. Por isso, acompanhar somente o número total de professores pode esconder mudanças importantes na composição do quadro docente.
O que precisa mudar para o Brasil evitar um problema maior até 2040?
O principal desafio revelado pelos dados está no tempo necessário para formar novos professores. Diferentemente de atividades nas quais uma vaga pode ser preenchida rapidamente por trabalhadores vindos de outras áreas, a docência exige formação específica e, dependendo da etapa e da disciplina, licenciatura correspondente. Isso significa que eventuais desequilíbrios identificados agora precisam ser observados com antecedência. Esperar que um número elevado de profissionais deixe a sala de aula para somente então buscar substitutos reduziria a capacidade de resposta das redes de ensino.
A análise também precisa evitar uma simplificação: professores mais velhos não representam um problema em si. Experiência acumulada pode ser extremamente relevante para as escolas e para a formação de novos profissionais. O ponto indicado pelo estudo é outro: quando aumenta rapidamente o número de docentes próximos das faixas etárias associadas à aposentadoria e diminui a entrada dos mais jovens, a reposição futura pode tornar-se mais difícil. A questão, portanto, está no equilíbrio entre gerações e na existência de profissionais preparados para assumir as vagas que serão abertas progressivamente.
Há ainda um componente de planejamento público. Os dados permitem que governos observem antecipadamente quais disciplinas apresentam menores taxas de renovação e direcionem políticas de formação e atração profissional. Geografia, História, Língua Portuguesa, Sociologia, Filosofia e Artes aparecem entre as áreas mais pressionadas pelo indicador elaborado pelo Semesp. (O POVO) Isso permite tratar o problema de maneira mais específica, em vez de partir da ideia de que todas as áreas e regiões enfrentam exatamente a mesma situação.
A pesquisa divulgada em setembro de 2026 funciona, assim, como um indicador de uma transformação que ocorre de maneira lenta, mas pode produzir consequências duradouras. Em dez anos, o Brasil passou de uma relação próxima do equilíbrio entre docentes muito jovens e aqueles com 60 anos ou mais para aproximadamente um jovem para cada três profissionais da faixa mais velha. (O POVO)
O desafio dos próximos anos será descobrir se essa trajetória poderá ser revertida antes que as aposentadorias ampliem a necessidade de reposição. Isso passa pela capacidade de tornar a docência uma opção profissional capaz de atrair novas gerações, mas também por planejamento, formação adequada e acompanhamento das áreas em que a renovação já aparece mais limitada. A discussão, portanto, vai além do número de professores existentes hoje: trata de quem estará ensinando os estudantes brasileiros nas próximas décadas e em quais condições esses profissionais chegarão às escolas.