Sua empresa sobreviveria se o fundador saísse amanhã da sala de decisões? Marcio Alaor de Araujo analisa!

Elliot Caldervale
Elliot Caldervale 5 Min de leitura
5 Min de leitura
Marcio Alaor de Araujo

Marcio Alaor de Araujo, empresário com foco em resultados e desenvolvimento organizacional, avalia que boas práticas de governança corporativa só tornam uma empresa mais sólida quando mudam o custo de uma decisão. Adotar o código e publicar a política é a parte barata. A parte cara começa quando a regra contraria o interesse de quem manda.

A contradição é conhecida por quem convive com conselhos. Empresas com manual completo, comitês instalados e relatório anual impecável seguem tomando decisões relevantes em conversas informais, fora de qualquer instância. O documento existe; a prática, não. E o mercado costuma perceber a diferença antes do balanço.

A confiança que essas práticas prometem não nasce do conjunto de documentos, e sim do comportamento que eles conseguem impor quando ninguém está olhando. O que separa uma coisa da outra é observável, e é disso que trata o texto a seguir.

A prática que existe no papel e a que existe na decisão

Um teste simples separa as duas. Pergunte qual foi a última vez que uma regra de governança impediu a empresa de fazer algo que ela queria fazer. Se a resposta não existe, a prática ainda não foi exercida, apenas registrada.

Na prática, Marcio Alaor de Araujo aponta que a primeira vez em que uma política é aplicada contra quem a criou define se ela vale. Um limite de alçada respeitado só nas operações pequenas não é limite: é uma recomendação com aparência de norma.

Por isso, a implantação costuma ser mais lenta do que o cronograma sugere. Escrever a regra leva semanas; fazer com que ela resista ao primeiro caso desconfortável leva anos, e depende de o controlador aceitar perder uma disputa dentro da própria empresa.

Informação antes da decisão, não relatório depois dela

Um conselheiro que recebe o número de inadimplência três meses depois do fato só pode comentar o passado. Transparência, no sentido que importa para governança, é o desenho do fluxo: qual informação chega a quem, com qual frequência e antes de qual decisão.

Marcio Alaor de Araujo
Marcio Alaor de Araujo

Marcio Alaor de Araujo destaca um efeito secundário desse desenho, menos visível que o primeiro. Quando a informação circula com antecedência, o gestor passa a antecipar a pergunta que virá, e o padrão de decisão melhora antes mesmo de a reunião acontecer.

O oposto também se observa. Informação que só aparece depois do resultado transforma o conselho em auditor de fatos consumados e empurra a discussão para a busca de responsáveis. Governança que funciona gasta tempo com escolha, não com explicação do que já não tem volta.

O que o mercado lê quando avalia governança?

Analista e investidor não leem o código de conduta. Leem o histórico: quantas vezes a empresa mudou de auditor, se houve transação com parte relacionada sem justificativa, se a diretoria trocou três vezes em pouco tempo, se o balanço foi republicado. Esses sinais revelam a rotina interna melhor do que qualquer capítulo do código.

Para quem acompanha o mercado de capitais, explica Marcio Alaor de Araujo, a diferença aparece no preço. Investidor cobra pelo risco que não consegue enxergar, e esse prêmio adicional encarece a captação de uma empresa que não explica como decide.

O mesmo raciocínio vale para banco, fornecedor e comprador estratégico. Nenhum deles pede certificação; pedem previsibilidade. Uma empresa cujas decisões seguem um critério conhecido é mais barata de financiar, mais simples de auditar e mais fácil de vender quando chega a hora.

Solidez é o que resta quando o fundador não está na sala

Boas práticas de governança corporativa acabam medidas por um critério desconfortável: se a empresa continuaria decidindo bem sem a pessoa que hoje decide tudo. Quando a resposta depende de uma presença específica, o que existe é competência individual, não estrutura.

Confiabilidade tem a mesma origem. Ela não vem do que a empresa declara sobre si, e sim da repetição: o mesmo critério aplicado no ano bom e no ano ruim, com o mesmo rigor para o sócio e para o gerente de área.

Empresas sólidas raramente se descrevem como sólidas. Elas apenas atravessam trocas de comando, crises de crédito e mudanças de mercado sem que a lógica interna de decisão precise ser reinventada, e é essa continuidade que o mercado acaba chamando de governança.

 

Compartilhe este artigo